domingo, 26 de setembro de 2010

Lembranças da Faculdade 7 - O Professor Reynaldo Gomes da Motta

Uma das figuras mais emblemáticas da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal Fluminense foi o professor Reynaldo Gomes da Motta. Professor de Materiais Dentários, ensinou a nobre arte para centenas de dentistas, inclusive este que vos escreve. Fui testemunha de vários acontecimentos da vida deste nobre professor e tive o privilégio de ser o dentista de sua mãe, que na época tinha cerca de quase 90 anos. Ainda em plena lucidez falava com orgulho como educou os filhos. Mulher de fibra e determinada. Com certeza foi uma fonte inspiração para seus filhos, Reynaldo e Ary 
Antes da narração dos acontecimentos, vem a pergunta que o povo odontológico quer saber: Afinal de contas o prof. Reynaldo era ou não era gay?
Na minha opinião o prof. Reynaldo não era gay e sim metrossexual, antes mesmo de surgir esse termo para classificar os homens que dão importância demasiada a aparência, a estampa. Ele era vaidoso demais: Cabelos bem tratados, unhas bem feitas, perfumado, ternos bem cortados, bom preparo físico às custas de intensa malhação e alguns anabolizantes e assim por diante. Até mesmo as mulheres se sentiam diminuídas diante da chegada do prof. Reynaldo na faculdade.
Participamos de vários eventos, sendo o mais significativo quando fui seu secretário executivo numa das edições da Jornada Fluminense de Odontologia. Sempre muito educado nunca me faltou com respeito, nem de nenhum colega de turma.
Como ex-militar, era obsecado por pontualidade. Certa feita, estávamos no Plazza Shopping fazendo um lanche e a aula só iria começar às 18h. Nos distraímos e ficamos até mais tarde. Quando nos demos conta já estávamos atrasados e chegamos depois da aula começar uns 20 minutos aproximadamente. Ele já estava dando a aula e nos barrou. Ficamos indignados e resolvemos dar uma zoada nele. Sabíamos que era a semana do seu aniversário e, por isso, retornamos ao shopping, fomos ao florista e compramos um buque de rosas brancas. Retornamos no final da aula e demos de presente para ele, alegando que havíamos nos atrasado porque estávamos comprando as rosas para ele. Você tinha que ver o deslumbramento do prof. Reynaldo. Parecia uma miss Brasil recebendo a premiação! Até hoje ele se lembra deste acontecimento que tem quase 20 anos de ocorrido.
Outro acontecimento deu-se na última edição do Congresso Internacional de Odontologia do Rio de Janeiro realizado no antigo Hotel Nacional. O prof. Reynaldo participava de um simpósio sobre amálgama e resinas compostas. De um lado estava o Dr. Olympio Faissol defendendo as resinas e do outro o prof. Reynaldo a favor do amálgama. O debate estava acalorado, pois naquela época a indústria odontológica estava fazendo pressão para o fim do amálgama, pois as resinas davam mais lucratividade. Por isso, promoviam debates e simpósios sobre o assunto. O prof. Reynaldo defendeu o amálgama com muita propriedade e conhecimento. Estava na primeira fileira do auditório atento e torcendo pelo amálgama e pelo professor, porque, afinal de contas, a FOUFF estava sendo representada...
Na semana seguinte nos encontramos no pátio da faculdade. Comentamos o simpósio e ele estava muito entusiasmado com a repercussão no meio acadêmico. Aproveitando-me de sua euforia resolvi dar uma zoada. Disse que foi tudo ótimo, mas sentia que teria sido melhor se tivesse usado outro terno. "-Achei o Sr. meio oprimido naquele terno.", disse prendendo o riso. Na verdade ele estava bem vestido como sempre e não tinha nada demais. Eu que inventei aquela impressão. E não é que ele levou a sério? Um mês depois ele aparece na faculdade com um terno de linho muito bonito e ao me ver perguntou o que achava. Disse que agora ele estava com um terno à altura. Ele concordou e disse que tinha dado aquele terno "opressor" e todos os que se pareciam com ele...
Outra feita foi durante uma aula prática de resina acrílica termopolimerizável. O prof. Reynaldo estava nos ensinando como fazer uma prótese total. Colocou o modelo de cera na mufla, derreteu a cera, colocou a resina na mufla, prensou, cozinhou e, por fim, demuflar e dar o acabamento. Foi nesse último item que que ocorreu o fato cômico. A mufla estava tão justa que ele não conseguia desmontar. Tentou de tudo e nada. A turma estava impaciente, inclusive eu. Quando ele estava quase a desistir, tomei uma de minhas iniciativas intempestivas e disse sem pensar: "-Prof., deixa comigo que esse negócio é pra homem". Tirei a mufla de sua mão, dei três porradas com ela de contra a bancada e a mufla desmontou. Ele ficou com cara de bobo e agradeceu. A turma ficou atônita e muda. Depois veio os comentários e as risadas sobre como tive a coragem de chamar o professor de viado na cara dele. Só aí é que me dei conta da besteira que fiz, mas a história morreu naquela aula mesmo. Não tive a intenção de ofendê-lo, mas que foi engraçado foi...
Um dos eventos que o prof. Reynaldo gostava era a Jornada que ocorria nos mês de outubro na faculdade. Evento tradicional e principal da faculdade, o prof. Reynaldo não deixava por menos e participava em alto estilo. Na cerimônia de abertura estava sempre bem vestido e acompanhado de uma bela mulher, que dizia se sua namorada. Depois soubemos que se tratava de uma scort girl que ele contratava para ser sua acompanhante...
Outro fato interessante era o motorista particular dele. Era um negão muito sério. que levava o jaleco e a mala dele para a sala. Eles faziam uma tremenda coreografia ao chegar na faculdade, típica de um filme. Era diferente e engraçado ver aquela cena. coisas do prof. Reynaldo...
Por fim ele foi convidado para ser o presidente de uma edição da Jornada. Já estava formado, mas fui convidado para ser seu secretário executivo. Na época os alunos fizeram oposição e o diretório acadêmico decidiu boicotar a Jornada. Atitudes babacas típicas da tradição grevista da UFF (que fazia greve onde nenhuma outra universidade achava necessária), pois não havia motivo para tal. Colocaram uma faixa com os dizeres "jornada das estrelas", parafraseando o filme de mesmo nome. Mas nem por isso o prof. Reynaldo deixou de brilhar. Organizamos um evento fantástico com uma linda cerimônia de abertura e as atividades transcorreram sem maiores problemas. Nos divertimos muito. Ele se sentia o máximo, o comandante. Eu era o seu imediato organizando e supervisionado para que tudo saísse em ordem. Na verdade quem me fez esse convite foi o diretor da faculdade, prof. Raul Feres, pois já tinha sido presidente e participado da organização por várias edições. Tinha experiência de comando e conhecia os bastidores do eventos como ninguém. Ele achou seguro me colocar junto ao prof. Reynaldo para que não saísse nada de errado. E tudo foi muito bom. Por fim fomos fazer uma prestação de contas. Preparei os relatórios, mas me atrasei um pouco. Meu consultório era no Rio e para Niterói era uma viagem demorada. Ao chegar, já estava com o relatório pronto e com as transparências para o prof. Reynaldo apresentar. Tudo muito bem feito e bonito. Até que um prof. Nelson Mucha, que até hoje o considero um grande babaca, fez uma crítica depreciativa ao trabalho do prof. Reynaldo insinuando que houve desvio de verba. Na mesma hora o prof. Reynaldo deixou seu lado metrossexual de lado e partiu pra cima do zé mané e meteu a porrada nele. Rapidamente a "turma do deixa disso" interviu e não aconteceu algo pior. O prof. Reynaldo não admitiu que questionasse a integridade dele e fez muito bem dar um tapa na cara daquele babaca arrogante...
Bem, esse é o prof. Reynaldo. Controverso, inteligente e de vanguarda. Ele se aposentou, mas continua na ativa em outros projetos. Deve estar na casa do 80 anos. Nunca mais nos vimos, mas fica minha gratidão e admiração por este grande mestre!


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