domingo, 8 de agosto de 2010

O Dia em Que Meu Pai Foi Meu Paciente...

Antes de mais nada feliz dia dos Pais para todos os leitores desse Blog. Infelizmente meu pai já não está mais comigo. Foi um grande homem (pesava quase 180kg! rss), mas também no caráter. Confesso que não tivemos um relacionamento perfeito. Ele adotava um tipo de educação baseada no medo e não no respeito e admiração. Quando cresci (cheguei aos 1,90m e 100kg rss) e ganhava mais do que ele, não aceitei mais esse tipo de tratamento e nosso relacionamento azedou. Todavia, sempre cumpri a risca o mandamento divino "Honrarás teu pai e tua mãe..." e nunca o tratei na mesma moeda. Entretanto, como carinho, amizade e respeito se conquistam ao longo da convivência entre pai e filho, nosso relacionamento nunca foi o ideal. Guardo as lições, tanto positivas quanto negativas, que meu pai me deixou e procuro aplicá-las com meu filho para que ele se preocupe no futuro apenas com seus próprios problemas e não tenha que superar traumas de relacionamento entre pai e filho. Mas, vamos a história do título deste post. Comecei a faculdade de odontologia com 27 anos, já não morava mais com meu pai, tinha minha vida independente e, por causa de mais uma discussão infundada da parte dele não nos falávamos mais por cerca de 2 anos. Como éramos 2 cabeças-duras não dávamos o braço a torcer, até que um dia quando fui falar com minha mãe, ele estava em casa sozinho e pediu que entrasse para conversarmos. Não pediu desculpas, mas considerei como um pedido de desculpas o fato dele ter me chamado e ter conversado sobre coisas fúteis como se nada tivesse acontecido. Ele era muito altivo para um pedido de desculpas formal, mas não me importei. Meu coração se corroía por não falar com meu pai e aquela atitude já era o bastante para enterrarmos aquele desentendimento. Dessa conversa surgiram outras e ele perguntou como estava indo na faculdade. Disse que estava no terceiro período e já estava estagiando numa emergência odontológica de um hospital próximo. Meu pai tinha horror de dentista. Quando criança o vi fazendo uma extração de seu próprio dente (um molar superior), tamanho era seu medo de tratamento dentário. E durante aquela conversa ele me falou de um dente que estava incomodando a algum tempo. Ali mesmo examinei e vi que se tratava de um resto radicular com certa mobilidade. Seria uma extração simples. Disse a ele que resolveria o problema e que bastava irmos ao hospital no próximo plantão. Muito contrariado ele aceitou meu convite e no dia combinada fui até a casa dele e fomos para o plantão. Chegando lá falei com o staff e ele autorizou a execução do procedimento e ficou à disposição para ajudar no que fosse necessário. Preparei o instrumental, coloquei o velho na cadeira e ao colocar o anestésico no carpule, disse baixinho próximo ao seu ouvido: "Agora é a minha vez de tirar o recalque..." Meu velho ficou apavorado, pensando que ia me vingar ou coisa parecida. Vendo sua expressão de pavor caí na gargalhada e disse que era brincadeira. Meu  pai ficou cabreiro até a conclusão da extração e suspirou aliviado no final do procedimento. Voltamos alegres pra casa. Já se passaram 13 anos desde que se foi, mas guardo essa lembrança odontológica com muito carinho, pois foi a primeira vez que cuidei da saúde do meu pai...

3 comentários:

  1. Que linda história...
    Fiquei emocionada.
    bjs

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  2. Meu relacionamento com meu pai não e um conto de fadas, ao igual que seu relacionamento, as divergências e os pedidos de desculpas não falados são uma rotina. Já tive a chance de atender meu pai, e gratificante poder ajudar.Muito bom seu Blog!!

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  3. Grato pelo elogio!
    São lições que aprendemos para saber o que por em prática e o que evitar com nossos filhos...

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