quarta-feira, 17 de março de 2010

Histórias do meu consultório - I


Com este post iniciarei uma série de histórias do meu consultório. Algumas engraçadas, outras tristes e outras pitorescas.
Vou começar falando sobre um caso tragicômico.
Como todos sabem, fazer uma prótese total é uma arte. Você tem que ter a percepção do que o cliente quer, do que a família quer e ter um bom protético para ajudá-lo nesta difícil tarefa.
Tive uma cliente, Senhora X, que queria uma prótese total superior. Estava com pouco tempo de formado, muitas teorias e pouca tarimba de consultório. Fiz o orçamento e iniciei o tratamento. Senhora X era uma pessoa muito agradável e gentil, além de excelente cozinheira. Ela fazia um bolo de refrigerante Fanta que era uma delícia. Em cada consulta me trazia um generoso pedaço. Tudo transcorria normalmente até o término da confecção da prótese. Perguntei se ela gostou e disse que sim. Aí que estava meu erro, pois a deixei tomar a decisão sozinha e não envolvi a família no tratamento. Em prótese a família tem uma influência muito grande na percepção do resultado final. Por mais que a prótese esteja boa, se a família não gostar já era. A prótese total vai pro lixo. Não tinha isso em mente e entreguei a prótese da Senhora X, ela foi para casa toda faceira mostrar seu novo sorriso para a família. O marido da Senhora X era um policial aposentado muito grosso. Ainda por cima estava brigado com a Sra. X. Quando esta chegou a casa e sorriu para a família a filha torceu o nariz e o esposo arrematou que ela estava com cara de “chupa ovo”. Até hoje não sei o que isso significa realmente esse termo, mas coisa boa não é...
Mas o fato é que a Senhora X retornou ao consultório no dia seguinte falando barbaridades sobre meu trabalho. Estava irada, irritada, chateada e com vontade de me dar porrada. Ainda bem que meço 1,90m. Talvez por isso ela ficou no campo das ofensas verbais. Se fosse baixinho teria apanhado.
Então sugeri fazer nova prótese total. Com profundo desagrado ela aceitou, mas as coisas não foram mais como eram antes. Não me trazia mais meu bolo de fanta e colocava defeito em todas as provas que fazia, e não foram poucas. Até que enfim chegamos a uma prova que ela gostou. Neste dia veio com sua filha e ela gostou também. Mandei a prótese ao laboratório para acrilizar, mas estava receoso de que ela iria reclamar novamente.
Já estava disposto a devolver a importância paga caso ela não ficasse satisfeita.
A prótese chegou e liguei para a casa da Senhora X. Sua filha atendeu com voz triste. Perguntei-a sobre a Senhora X informando que a prótese estava pronta e que era necessário marcar uma consulta. A filha respondeu perguntando se eu não sabia “-O que?” perguntei eu. Ela muito triste falou que a Senhora X tinha tido um enfarte fulminante a faleceu havia uma semana atrás. Ao ouvir essa trágica notícia fiquei com um misto de espanto, triste e alívio! Sim, alívio! Fiquei triste por uma pessoa tão distinta ter partido de forma tão abrupta, mas aliviado por não ter mais pela frente uma cliente enfurecida.
Guardei a prótese da Senhora X de recordação...

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